Pela liberdade no mundo digital
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Stallman: crítica à computação móvel e aos 'desserviços bisbilhoteiros'. Foto: Gisle Hannemyr/Flickr/Wikimedia Commons

Stallman: crítica à computação móvel e aos ‘desserviços bisbilhoteiros’.
Foto: Gisle Hannemyr/Flickr/Wikimedia Commons

Richard Stallman, criador do Movimento Software Livre, fará conferência em defesa do compartilhamento e da privacidade dos usuários

 

POR ITAMAR RIGUEIRA JR.*

 

No início da década de 1980, quando era programador do Laboratório de Inteligência Artificial do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Richard Matthew Stallman viu desfazer-se a comunidade a que pertencia, caracterizada pelo espírito de colaboração, já que seus amigos foram arregimentados por empresas produtoras de softwares proprietários. Ele teve um choque quando, ao tentar consertar o driver de uma impressora, o desenvolvedor se recusou a compartilhar o código-fonte. Forjava-se naquele momento o mais destacado ativista mundial pela liberdade no uso da tecnologia.

Stallman fará na UFMG, em 29 de maio, a conferência Uma sociedade digital livre: o que torna a inclusão digital boa ou ruim?, que integra a programação dos 90 anos da UFMG. Fundador do Movimento Software Livre, ele tem feito pelo mundo a defesa da cultura do compartilhamento e a denúncia da censura e do ataque à privacidade dos usuários.

“O Software Livre é um projeto político, social e ético, base da esperança e da luta de Stallman por uma sociedade em que o cidadão tenha controle sobre sua vida”, comenta o professor Loïc Cerf, do Departamento de Ciência da Computação, anfitrião de Richard Stallman na UFMG. Assim como o ativista americano, Cerf não usa telefone celular. “Stallman costuma dizer que o celular é ‘o sonho de Stalin’, por causa dos softwares proprietários, que capturam dados pessoais”, lembra o professor do ICEx.

Em 1984, Stallman iniciou o desenvolvimento de GNU, sistema operacional livre que mais tarde seria associado ao Linux – um kernel, componente central do sistema – e resultaria no GNU/Linux.

Quatro liberdades

O software livre é definido por quatro liberdades essenciais: os usuários podem rodar um programa do jeito que quiserem, para qualquer finalidade; podem estudar como o programa funciona e adaptá-lo a suas necessidades; podem redistribuir cópias para ajudar outras pessoas; finalmente, podem aperfeiçoar o programa e tornar pública essa melhoria. O acesso ao código-fonte é, naturalmente, precondição para a segunda e a quarta liberdades.

“Richard é a pessoa mais íntegra com quem já tive o prazer de conviver. Seu trabalho é para que todos nós possamos usar computadores sem sofrer controle alheio”, afirma Alexandre Oliva, cofundador da seção latino-americana da Fundação para o Software Livre, que o premiou recentemente por sua contribuição ao avanço da causa. Para Oliva, nunca foi tão fácil ter acesso e usar software livre, mas nunca foi tão difícil alcançar a plena liberdade. “Empresas liberam componentes pouco relevantes para suas estratégias de mercado, mas mantêm secretos outros que servem a objetivos menos confessáveis”, ele diz.

A conferência de Richard Stallman, com tradução simultânea, terá início às 14h, no Auditório Nobre do CAD 1.

Entrevista/Richard Stallman
Vigilância ameaça democracia

Que leis ou ações podem criar condições para uma inclusão digital positiva?

Precisamos de leis que impeçam sistemas digitais de capturar e transmitir dados pessoais não cruciais para determinadas finalidades. Os Estados devem distribuir, usar e desenvolver apenas software livre e estabelecer sistemas de pagamentos digitais anônimos para quem paga, mas que identifiquem quem recebe, para evitar evasão fiscal. O monitoramento indiscriminado de pessoas e carros nas ruas deveria ser proibido.

Como os avanços tecnológicos ameaçam a democracia?

A principal ameaça à democracia é a vigilância em massa. Se o Estado quase sempre sabe quem vai aonde e quem fala com quem, pode pegar e prender heróis como Edward Snowden, pessoas de quem a democracia depende. Backdoors [mecanismos ocultos que permitem acesso remoto] e as sabotagens que elas possibilitam são também perigosas.

Quais foram a vitória e a derrota mais importantes no Movimento Software Livre nos últimos anos?

O maior avanço recente é que já é possível comprar um computador com um sistema operacional 100% livre e um software de inicialização livre, pré-instalado. Você não precisa ser um gênio para rodar um software livre, e agora não precisa mais da ajuda de um gênio para instalá-lo. Os maiores retrocessos foram a ascensão da computação móvel, de desserviços bisbilhoteiros e da internet das coisas que espionam.

Como universidades e pesquisadores podem contribuir com o Movimento Software Livre?

Universidade e escolas de todos os níveis deveriam ensinar e oferecer apenas software livre aos estudantes. Softwares proprietários deveriam ser autorizados nos campi apenas para engenharia reversa.

Como a adoção massiva da internet ajuda ou dificulta o movimento?

Infelizmente, para a maioria das pessoas, “usar a internet” significa usar serviços injustos (eu chamo de desserviços) cujo propósito é capturar dados pessoais. Desserviços como Facebook, Google Maps, Google Drive, iTunes, Spotify e Netflix cometem múltiplas injustiças. Sistemas de pagamento, com exceção do dinheiro vivo, rastreiam as pessoas – nem o Bitcoin é anônimo. Dispositivos móveis não permitem substituição de software proprietário por software livre. Quase todos os aplicativos tampouco são livres – eles podem ser gratuitos, mas não são livres. Telefones celulares rastreiam as pessoas o tempo todo e podem ser convertidos remotamente em dispositivos de escuta. Por isso, me recuso a carregar um telefone celular.

*Reportagem originalmente publicada na edição nº 1978 – Ano 43 de 22/5/2017 do Boletim UFMG.

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