‘Linguística é ferramenta para entender a pré-história’, afirma Lyle Campbell
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Campbell: linguística e genética ajudam a explicar a evolução das línguas. Foto: Foca Lisboa/UFMG

 

Em conferência, professor da Universidade do Havaí traçou panorama das teorias que tentam explicar a origem das línguas sul-americanas

 

Em conferência ministrada na noite desta quarta-feira, 18, o professor da Universidade do Havaí Lyle Campbell abordou as diferentes correntes de estudo que se dedicam às línguas indígenas na América do Sul. Com o título Indigenous languages in South America: a historical perspective for linguistic diversification and recent decline, a conferência integrou Ciclo de Conferências UFMG, 90: desafios contemporâneos e a 26ª edição da Semana do Conhecimento.

O professor informou que a América do Sul possui 108 famílias linguísticas indígenas ativas, o que equivale a 26,5% das línguas indígenas do mundo. Somando-se aos idiomas existentes nas Américas Central e do Norte, esse número sobe para 173, o equivalente a 42,5% das famílias indígenas do mundo. Para Campbell, esses números evidenciam o desafio que é estudar a variedade linguística dos povos que habitam a região.

“Os linguistas analisam o contato entre as línguas e como elas se influenciam mutuamente. Quando falamos de família linguística, estamos falando de um grupo de línguas de uma região com traços específicos. A evolução linguística está relacionada ao contato entre os povos. Estudar esse contato é um grande desafio”, afirmou o professor, que foi recebido pelo vice-reitor em exercício, José Marcos Nogueira, e pelo professor Fabrício Rodrigues dos Santos, do ICB.

Campbell explicou que existem várias teorias sobre a origem das línguas sul-americanas e que todas elas estão relacionadas a movimentos migratórios que povoaram a região. Uma delas afirma que a América do Sul surgiu com uma língua em comum, pois os primeiros povos que chegaram à região falavam a mesma língua. Outra indica a existência de dois ou três movimentos migratórios, que trouxeram suas línguas para a América do Sul. Uma terceira teoria sustenta que houve migrações multilíngues, com vários povos chegando à região ao mesmo tempo. Há, ainda, correntes que defendem que as diversas línguas trazidas pelos povos migratórios se misturavam, dando origem aos idiomas sul-americanos.

 

Público acompanha conferência do linguista norte-americano no auditório da Face. Foto: Foca Lisboa / UFMG.

Público acompanha conferência do linguista norte-americano no auditório da Face. Foto: Foca Lisboa / UFMG.

 

“A maioria dessas teorias estão ultrapassadas”, asseverou Campbell. “Hoje já se sabe que a chegada dos povos à América do Sul ocorreu por acaso. Acreditamos que existe uma conexão entre as diversas línguas indígenas da América do Sul, mas isso é algo impossível de ser comprovado”, acrescentou.

O professor citou o linguista Joseph Greenberg, para quem todas as línguas americanas descendiam de uma única matriz, que ele chamava de “Ameríndia”. Greenberg elaborou sua teoria de acordo com estudos genéticos, que apontavam para uma descendência comum dos povos habitantes da América. Campbell ressalta que tal visão é ultrapassada porque os dados usados por Greenberg eram imprecisos.

“Não se pode reduzir as línguas indígenas como fez Greenberg. Ele comparava as línguas em busca de semelhanças e, a partir delas, dizia que as línguas tinham uma origem comum. Esse método é falho e incapaz de entender as complexidades linguísticas”, afirmou.

Linguística + genética

 

Campbell destacou a importância da multidisciplinaridade nos estudos de línguas indígenas. O professor explicou que, por muito tempo, os campos da genética e da linguística assumiram posições distintas sobre a evolução das línguas, mas que uma junção das visões dos dois campos possibilita estudos mais conclusivos.

“A genética e a arqueologia são as disciplinas capazes de promover uma investigação da ancestralidade dos povos. Partindo dessa ancestralidade, a linguística passa a ter mais elementos de análise da língua, visto que língua e cultura andam juntas. Por isso, o estudo de idiomas indígenas é um campo multidisciplinar”, afirmou.

O professor ressalvou, porém, que uma ancestralidade linguística comum não implica ancestralidade genética comum. “Vinte e quatro por cento das famílias linguísticas foram extintas. Isso não ocorreu porque as populações que falavam essas línguas acabaram, mas porque esses povos passaram a falar outras línguas. Hoje, há três mil línguas em risco de extinção, então precisamos ir além do pensamento de que a língua pode ser explicada apenas pela genética dos povos. A linguística é ferramenta para entender a pré-história”, concluiu.

A TV UFMG conversou com Lyle Campbell sobre as línguas indígenas e sobre sua participação no ciclo de conferência dos 90 anos da UFMG:

 

 

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