Heinrich: edição dos originais de Marx e de sua correspondência. Foto: Divulgação

 

Alemão Michael Heinrich faz conferência, nesta sexta-feira, sobre a atualidade de O capital

 

POR ITAMAR RIGUEIRA JR.*

 

Na década de 1970, foi iniciada a segunda versão do Projeto Mega, cujo objetivo é pesquisar e publicar a totalidade dos manuscritos e obras do pensador alemão Karl Marx, incluindo os que deram origem aos três volumes de O capital. A empreitada, que deve se estender ainda por algumas décadas, reúne instituições e pesquisadores de diversos países, como o matemático e cientista político Michael Heinrich, da Universidade de Ciências Aplicadas, em Berlim. Defensor da atualidade da obra de Marx, de quem produz atualmente uma biografia, Heinrich fará conferência na UFMG, no dia 26 de maio, a partir das 11h, no auditório 1 da Face, campus Pampulha.

“Nosso interesse em ouvir Michael Heinrich está relacionado à sua interpretação do pensamento de Karl Marx. Ele formulou uma leitura de sua obra que despertou controvérsias por suas conclusões pouco usuais. Afirma, por exemplo, que Marx não tem uma teoria acabada sobre os mecanismos que levam às crises no capitalismo, mas formulou diferentes sugestões de como elas podem ser entendidas”, explica o professor do Cedeplar Hugo da Gama Cerqueira, pró-reitor de Planejamento e Desenvolvimento, que fez o convite e organiza a vinda de Michael Heinrich. Cerqueira ressalta que, além de integrar as celebrações dos 90 anos da UFMG, a conferência marca os 50 anos do Cedeplar e os 150 anos da publicação do primeiro volume de O capital.

Poucos artigos de Heinrich foram publicados em português, e seus livros (A ciência do valor e Introdução à crítica da economia política, entre outros) continuam inéditos no Brasil. O primeiro, em que o autor faz exame minucioso de O capital, beneficiou-se de achados do Projeto Mega.

De acordo com Hugo Cerqueira, a obra de Karl Marx é muito discutida e, paradoxalmente, pouco conhecida. “O capital é um livro difícil, entre outras razões, porque é multidisciplinar e adota um método novo para a abordagem de um tema complexo. Faz uma crítica da sociedade capitalista e da ciência que estava disponível para analisá-la. Não por acaso, leva o subtítulo Crítica da economia política“, explica o professor, integrante do Grupo de Pesquisa em Economia Política, do Cedeplar, que tem atuado em interação com pesquisadores europeus e japoneses envolvidos no projeto Mega.

Cerqueira lembra que, na década de 1980, um terço da humanidade vivia sob regimes políticos que diziam inspirar-se nas ideias de Karl Marx, mas que pouco tinham a ver com o que ele escreveu. “Marx escreveu muito pouco sobre o socialismo. Seu tema de pesquisa foi o capitalismo. O próprio Manifesto comunista combina um elogio à natureza transformadora do capitalismo com a crítica a sua propensão a produzir crises, miséria e exclusão”, diz o pesquisador.

A importância de estudar e debater Marx reside, para Hugo Cerqueira, no fato que, se muita coisa mudou desde os tempos em que ele uniu teoria e pesquisa empírica na Inglaterra, continuamos vivendo sob o capitalismo: “A questão é como mobilizar a compreensão de Marx para entender e transformar o mundo atual.”

Entrevista / Michael Heinrich
“Falta uma biografia científica de Marx”

Por que ainda é necessário ler O capital, de Karl Marx?

A obra ainda é a análise mais fundamental do modo de produção capitalista. Marx tratou o capitalismo como uma nova forma de sociedade, viu que estava acontecendo uma mudança importante. E essa mudança resultou nas nossas sociedades atuais. Mas é preciso cautela ao se falar de suas teorias. Elas provêm realmente de Marx ou de tradições marxistas? Por exemplo, não há um texto em que Marx tenha usado a expressão “materialismo dialético”. Ele usou os termos “dialética” e “materialismo”, mas não elaborou uma teoria filosófica geral. É preciso ler seus textos considerando as condições que cercaram seu surgimento e o fato de que, em geral, são versões editadas.

Quais as descobertas proporcionadas pelo Projeto Mega?

Diversos manuscritos estão sendo publicados pela primeira vez. Por exemplo, o capítulo sobre dialética hegeliana de Manuscritos econômico-filosóficos não existia, foi construído pelos primeiros editores reunindo passagens de diferentes partes do original. Quanto a O capital, a Mega publicou os manuscritos originais relativos ao segundo e ao terceiro volumes. Engels reordenou o material, inseriu títulos e subtítulos e reformulou a maioria das frases, sem indicar boa parte dessas mudanças. Agora, será possível comparar os originais de Marx com a versão de Engels. O projeto vai também publicar todos os textos produzidos por Marx e a correspondência com terceiros, que revela controvérsias em que eles se envolveram.

Qual a sua principal motivação para produzir uma nova biografia de Marx?

A biografia vai tratar de todos os aspectos da vida de Karl Marx e do desenvolvimento de seu trabalho. Alguns aspectos de sua vida pessoal, como o rompimento com amigos, foram influenciados por insights em seu trabalho. Sua produção, por outro lado, foi influenciada por mudanças em suas condições de vida e por conflitos políticos. Falta uma biografia realmente científica de Marx, que lide com as fontes de forma crítica.

O que o senhor espera do contato mais próximo com pesquisadores da UFMG?

Meus estudos sobre Marx foram influenciados pela situação política e pela cultura acadêmica na Alemanha, e quero aprender com visões que emergiram em outros contextos. E sei que pesquisadores da UFMG estão trabalhando nos cadernos inéditos de Marx sobre crise, que vieram depois dos manuscritos do terceiro volume d’O capital. Pretendo conhecer essas discussões.

*Reportagem originalmente publicada na edição nº 1978 – Ano 43 de 22/5/2017 do Boletim UFMG.

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