Trajetórias que se cruzam
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Laboratório de manipulação da Farmácia Universitária; em destaque o Farmacêutico Responsável Dr. Hélio Duarte. Acervo: Farmácia/UFMG

Laboratório de manipulação da Farmácia Universitária; em destaque o Farmacêutico Responsável Dr. Hélio Duarte. Acervo: Farmácia/UFMG

UFMG e SBPC sempre mantiveram projetos conjuntos em favor do desenvolvimento da ciência brasileira

POR ANA RITA ARAÚJO*

No dia 4 de julho de 1965, quando as manchetes estampavam tanto a promessa do então presidente Castelo Branco de que o povo escolheria livremente os governantes como o desejo de Martin Luther King de uma solução pacífica para o Vietnã, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) abria em Belo Horizonte a sua 17ª Reunião Anual. O encontro congregaria cerca de mil participantes – entre cientistas brasileiros e estrangeiros – e teria apresentação de 600 trabalhos.

Baeta Vianna em laboratório na Faculdade de Medicina: presidente da SBPC em duas gestões. Acervo Cememor Medicina/ UFMG

Pela primeira vez, a então Universidade de Minas Gerais (UMG) sediava o que se tornaria o maior evento científico da América Latina. Contudo, não era nova a relação entre a Universidade e a SBPC. Professores como José Baeta Vianna, da Faculdade de Medicina, presidente da Sociedade em duas gestões (1959-1961 e 1961-1963), estavam há muito comprometidos com os valores que nortearam a criação da entidade, em 1948.

A UFMG receberia a reunião anual da SBPC em outras três ocasiões – 1975, 1985 e 1997. Paralelamente, seus pesquisadores ocuparam cargos na presidência, na vice-presidência, no conselho e na Secretaria Regional Minas, esta criada em 1961, ocupada inicialmente por Giorgio Schreiber, e até hoje dirigida por professores da UFMG, com apenas duas exceções.

Até o fim dos anos 1990, também participaram da diretoria da SBPC os professores da UFMG Olga Henriques, Wolfgang Büchrel, Wilson Teixeira Beraldo, Angelo Machado (vice-presidente em duas gestões) e Carlos Ribeiro Diniz. Atualmente, integra o Conselho o professor emérito da UFMG Carlos Roberto Jamil Cury. Na 67ª Reunião Anual, realizada na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), em 2015, tomou posse na mesma instância o professor Eduardo Mortimer, da Faculdade de Educação.

“Para qualquer universidade, é uma honra receber a reunião, principalmente para instituições fortes em pesquisa. E a UFMG tem um diferencial, pois sempre foi muito atuante na SBPC, uma das que mais se articularam com a entidade, inclusive na realização de eventos científicos”, avalia Angelo Machado.

Marca

A SBPC tem peso fundamental na própria estrutura da Universidade, assegura o professor Márcio Quintão Moreno, que integrou a Regional Minas no início dos anos 1990. “Apesar de ter sido implantada pela ditadura militar, a reforma universitária de 1968 é resultado de campanha feita durante anos pela Sociedade”, relembra. Em sua opinião, a reforma teve dois grandes méritos: reunir os professores de cada área em institutos, otimizando recursos, e instituir o regime de dedicação exclusiva.

A ciência mineira também tem a marca da SBPC. Secretária regional da entidade desde 2011, a diretora do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), Andrea Mara Macedo, relembra a importância do Comitê em Defesa da Ciência e Tecnologia em Minas Gerais, do qual participou na década de 1990. “Com a presença de professores da UFMG e da secretaria regional, essa luta levou o estado a atingir o percentual de 1% de recursos orçamentários direcionados à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig)”, observa. A própria criação da Fapemig, que só se efetivaria em 1986, já havia sido objeto de moção aprovada na 17ª Reunião, em 1965. Texto lido na ocasião pelo geneticista Warwick Kerr pedia ao governador Magalhães Pinto o envio de projeto à Assembleia Legislativa e sugeria a realização de um “trabalho junto às lideranças partidárias, para quebrar algumas arestas”.

Em entrevista publicada em 1993 no site do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), o professor Carlos Ribeiro Diniz ressalta “o papel importantíssimo que a SBPC teve na concretização desse projeto” e conta que, no início dos anos 1980, uma comissão de cientistas da Sociedade procurou o governo mineiro para discutir os estatutos de uma fundação nos moldes da Fapesp. “O governador Hélio Garcia assumiu o compromisso de anunciá-la oficialmente na abertura da 37ª Reunião Anual da SBPC, que ocorreria em julho de 1985 em Belo Horizonte. E assim foi feito”.

Ao longo dos anos, diversos projetos conjuntos foram realizados pela Universidade e SBPC, como o Ciência às 6 e ½, que, na década de 1980, promovia debates e conferências semanais abertas ao público, na Faculdade de Ciências Econômicas, à época localizada no centro de Belo Horizonte. “Nossa intenção era levar a ciência à sociedade, que não fazia ideia do que era a Universidade”, relembra o então secretário regional no período 1988-1990, Ewaldo Mello de Carvalho, do Departamento de Física.

A parceria também se dá no campo editorial. Nos anos 1980, Angelo Machado participou do grupo que elaborou o projeto da revista Ciência Hoje das Crianças. E foi no Laboratório de Entomologia, coordenado pelo próprio professor no ICB, que, durante muitos anos, funcionou a sucursal mineira da Ciência Hoje, comandada pelo jornalista Roberto Carvalho.

Energia nuclear

Machado: abrigo para a sucursal mineira da Revista Ciência Hoje. Foto: Foca Lisboa/ UFMG

Enquanto parte da sociedade de Belo Horizonte atendia a convite do consulado norte-americano para participar de atividades esportivas em comemoração à independência dos Estados Unidos, naquele 4 de julho de 1965, o reitor Aluísio Pimenta abria as portas da Faculdade de Medicina para a 17ª Reunião Anual da SBPC. As atividades prosseguiriam até o dia 10, também na Escola de Engenharia, e trariam a Belo Horizonte debates de temas como Comportamento e biologia das libélulas, por Angelo Machado, Educação de excepcionais, por Helena Antipoff, Enxerto de córnea, por Hilton Rocha, e Problemas de fixação do cientista no meio, por Wilson Beraldo, que presidiu a comissão organizadora do evento, ao lado dos professores Giorgio Schreiber, secretário, e Carlos Diniz, conselheiro. Sobre o tema abordado por Wilson Beraldo, foi encaminhado, ao fim do evento, memorial à Presidência da República, salientando que o “êxodo de cientistas brasileiros” tinha como principal causa a impossibilidade de eles desenvolverem suas atividades em regime de tempo integral.”

“Um dos temas mais vivamente debatidos foi a energia nuclear”, rememora Márcio Quintão Moreno, professor de Física na UFMG de 1955 a 2004. “A Física no Brasil se concentrava praticamente no Rio e em São Paulo. Acompanhei várias reuniões, porque todos os grandes pesquisadores da área estavam presentes”, completa.

 

Pássaro morto

Uma década depois, a reunião anual retornaria à UFMG, na gestão do reitor Eduardo Cisalpino. “Fizemos uma programação cultural conjunta com o Festival de Inverno, na tentativa de realizar, pela primeira vez no Brasil, um simpósio sobre ciência e arte”, relata Angelo Machado, lembrando que conservação da natureza e ecologia foram os temas mais marcantes do evento. “Articulei e coordenei uma série de encontros de entidades ambientalistas, as primeiras reuniões desse tipo realizadas no país”, revela.

Os quatro mil participantes também discutiram planejamento econômico e social, as questões nuclear, agrária, habitacional e indígena, a situação de parques nacionais e reservas. Participou da discussão desses dois últimos temas o sertanista e indigenista Orlando Villas-Bôas. A identidade visual da reunião trazia a imagem de um pássaro morto, com a interrogação Por quê?, simbolizando todo o mundo biológico ameaçado, incluindo o próprio homem, e a preocupação dos cientistas com o futuro da humanidade frente “à progressiva deterioração do meio ambiente”.

Começar de novo

Uma folha verde brotando de um tronco seco, com os dizeres Começar de novo foi a identidade visual da 37ª Reunião Anual da SBPC, em julho de 1985, também realizada na UFMG, durante a gestão do reitor José Henrique Santos. No cenário da redemocratização, os debates, que reuniram oito mil pessoas, e os 2.800 trabalhos apresentados versavam sobre assuntos como ciência, tecnologia e Brasil democrático, ciências e constituinte e reforma agrária.

Em julho de 1997, já no mandato do reitor Tomaz Aroldo da Mota Santos, a 49ª reunião trouxe o tema Ciência hoje, Brasil amanhã. A Lei de Patentes, que entrara em vigor em maio daquele ano, norteava a agenda de debates do país e permeou a programação do evento. Foram discutidos temas como a relação com a indústria e sua dificuldade em realizar inovações tecnológicas, pesquisas na área privada, deficiência de investimento em Ciência e Tecnologia, burocracia e legislação. Difusão científica, entraves à integração do Mercosul, clonagem humana, democracia e políticas públicas, corrupção e vendas de votos no Congresso Nacional compuseram, ainda, a agenda de debates. A preocupação ambiental se manteve na programação, com debates sobre a Amazônia e as políticas de preservação.

Naquela edição, foram homenageados os professores Carlos Ribeiro Diniz (1919-2002) e Wilson Beraldo (1917-1998).

 

*Reportagem originalmente publicada na edição “Especial SBPC (3ª edição) – Ano 43 – março de 2017” do Boletim UFMG

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