Dois pioneiros da pesquisa
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Vista completa do Instituto de Ciências Biológicas. Data: s/d. Arquivo: CEDECOM

Bradicinina e insulina sintética estão entre as duas principais contribuições para o progresso da ciência brasileira

 

A descrição, em 1949, da bradicinina, substância que resultou no desenvolvimento de um dos medicamentos mais usados no controle da hipertensão arterial, é considerada a segunda mais importante descoberta científica no Brasil. O atestado é da Sociedade Brasileira de História da Medicina, para quem o advento do vasodilatador só perde em relevância para a descoberta da Doença de Chagas, no início do século passado, pelo cientista mineiro Carlos Chagas.

Wilson Beraldo: testes com o veneno de jararaca. Foto: Eber Faiolli/ UFMG

Os responsáveis pela façanha foram os professores Maurício Rocha e Silva, da USP, Wilson Teixeira Beraldo – seu assistente formado em Medicina pela então UMG – e Gastão Rosenfeld, egresso do Instituto Butantã. Em fins de 1947, depois de mais um teste com injeção de veneno de jararaca aplicada em cão, o trio percebeu que o animal sofria uma queda de pressão, reação diferente da então verificada, chamada de histamina. A nova reação ganhou o nome de bradicinina, que significa “movimento lento” (do grego bradys, lento, e kinein, movimento), uma vez que não surgia instantaneamente. Os resultados do experimento foram relatados no número inaugural da Revista Ciência e Cultura, da recém-criada SBPC, e no American Journal of Physiology.

As pesquisas continuaram, e a equipe chegou a isolar a substância que acabou por resultar em um pó. A aplicação terapêutica, no entanto, só viria mais tarde, quando um dos discípulos de Maurício Rocha Silva, o professor Sérgio Ferreira, isolou o BPF (Bradykin Potenciating Factor) do veneno de jararaca, procedimento que viabilizou a síntese do Captopril, largamente empregado no tratamento da hipertensão.

Em entrevista ao BOLETIM, em março de 1989, Wilson Beraldo, já na condição de professor da UFMG, explicou a ação da bradicinina. “Ela é produzida por enzimas e liberada pelo organismo em processos que precedem a queda da pressão arterial. No caso da nossa pesquisa, a liberação foi provocada pela injeção do veneno de jararaca no sangue de um cão”, disse o professor. Além de seu efeito sobre a pressão arterial, a substância age sobre a secreção de glândulas salivares, sobre o pâncreas, interfere na coagulação do sangue e na secreção de urina, alergias, inflamações e reações anafiláticas. Mais tarde, descobriu-se que ela também atua na estimulação dos terminais nervosos que levam a mensagem de dor para o cérebro.

Wilson Teixeira Beraldo, falecido em 1998, foi um dos fundadores, em 1948, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

Unindo os pontos

Mares Guia (ao centro), em 1964, quando defendeu tese de doutorado em enzimologia na Tulane University of Louisiana. Acervo ICB

Em meados dos anos 1970, o Brasil dava um grande passo para se tornar um dos principais centros produtores de insulina. À época, o professor Marcos Luiz dos Mares Guia, do Departamento de Bioquímica e Imunologia do ICB, e o empresário Guilherme Emrich fundaram a Biobrás, em Montes Claros, no Norte de Minas. A empresa chegou a ser a quarta maior fabricante de insulina sintética do mundo.

A experiência começou no fim da década anterior, quando Mares Guia e o professor Carlos Ribeiro Diniz estruturaram o mestrado em Bioquímica do ICB, iniciativa que não só contribuiu para formar pesquisadores como impulsionou a produção de enzimas, que se revelaria decisiva para o projeto da Biobrás.

“Os alunos do professor Marcos Mares Guia estavam interessados em pesquisar a ação clínica de enzimas, enquanto os de Engenharia Química queriam saber apenas como produzir enzimas. Ele teve a brilhante ideia de criar o curso de mestrado em Bioquímica, dirigido a engenheiros químicos. A ideia era unir as duas visões, a médica e a de produção, num mesmo ambiente”, analisou Guilherme Emerich, em entrevista à Revista Diversa, em 2007.

Em 1971, foi estruturada empresa para sintetizar insulina em escala piloto. Três anos depois, teve início a construção da fábrica em Montes Claros, financiada pela Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). A inauguração ocorreu em 1975, e, no ano seguinte, a unidade já produzia enzimas em escala industrial.

Marcos dos Mares Guia também comandou os estudos que resultaram no desenvolvimento da insulina recombinante, em 1990, considerado um grande avanço no tratamento da diabetes. Até então, a insulina era extraída do pâncreas de bois e porcos, que se assemelha à humana, mas que pode acarretar reações alérgicas.

A técnica desenvolvida por Mares Guia consistia em introduzir, na bactéria, o gene da pró-insulina humana, para que ela passasse a produzir o hormônio. Esse processo possibilitou fabricar insulina humana in vitro em um terço do tempo necessário para obtê-la pelo método tradicional, que era de 30 dias.

Em 2000, a Biobrás obteve patente internacional da insulina sintética. Em 2002, a empresa foi vendida para a dinamarquesa Novo Nordisk. Marcos Luiz dos Mares Guia morreu no mesmo ano e hoje dá nome a um prêmio concedido pelo governo de Minas Gerais que reconhece pesquisadores e instituições responsáveis por avanços da pesquisa básica.

 

*Reportagem originalmente publicada na edição “Especial SBPC (3ª edição) – Ano 43 – março de 2017” do Boletim UFMG

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