Teólogo ministrou conferência de encerramento do 9º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária, que registrou 14,9 mil inscrições e 3,5 mil trabalhos

Leonardo Boff: “extensão universitária é uma forma de reparação da dívida social” (Reprodução de tela: Raphaella Dias | UFMG)

“Falar de direitos humanos é falar do primeiro direito a ser definido, o centro de tudo, que é a vida. E todos os meios que propiciam vida, como o alimento, o trabalho, a moradia, a segurança, a cultura e espaços de lazer. Tudo isso pertence à vida, esse valor supremo que a evolução produziu e que temos o dever ético de cuidar e guardar”, defendeu o teólogo Leonardo Boff, durante a conferência de encerramento do 9º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária (disponível no canal da Universidade Federal de Alfenas no Youtube) e de abertura do 47º Forproex (Fórum dos Pró-reitores de Extensão).

Boff afirmou que o advento do coronavírus força a humanidade a promover uma ampla reflexão orientada pelas seguintes perguntas: de onde ele veio, e por quê?; o que conta mais: a natureza ou a devastação, o cuidado ou a exploração irresponsável de bens e serviços, o lucro ou a vida?; que tipo de Terra queremos habitar?; que tipo de casa comum queremos construir juntos?

A provocação do escritor, intelectual e expoente da Teologia da Libertação veio acompanhada de uma observação peremptória: “A pandemia é uma resposta à sistemática violência contra os direitos da natureza, que perpetramos durante séculos”.

Na opinião de Boff, “o novo coronavírus caiu como um raio sobre o capitalismo e o neoliberalismo, que têm como mantra o lucro, obtido por meio da concorrência, do acúmulo individual, da redução do Estado e da elevação do mercado acima da sociedade”. E acrescentou: “O destino comum nos conclama a um novo começo, que precisa ser diferente de tudo que já vivemos. Voltar ao antes, à imensa pobreza, à violência generalizada e à devastação sistemática da natureza seria a pior coisa que poderia nos acontecer”.

Com múltiplas referências a trechos da Bíblia, a filósofos e a cientistas vencedores do Prêmio Nobel, Leonardo Boff reafirmou: “Temos que cuidar e guardar a Terra, assim como tiveram Adão e Eva, quando foram colocados no jardim do Éden. Não queremos que nossos filhos e netos nos amaldiçoem porque deixamos de herança para eles água poluída, solos contaminados, alimentos quimiquizados”.

Após mencionar o novo paradigma proposto pelas encíclicas do Papa Francisco, Laudado si, sobre o cuidado da casa comum, e Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social, Leonardo Boff enfatizou a proposta de superação da visão do ser humano como dono e senhor da natureza. “O Papa contrapõe essa velha concepção, com o novo paradigma do irmão e irmã, inspirado em São Francisco de Assis. É uma proposta para que nos sintamos irmãos e irmãs entre nós, seres humanos, e com tudo que é vivo na natureza. A imagem que os astronautas mostram da Terra, vista do espaço, nos ajuda a perceber que não existe distinção entre o planeta e a humanidade”, observou.

“As encíclicas reforçam isso: somos feitos dos mesmos elementos, das primeiras e grandes estrelas vermelhas, que há bilhões de anos deram origem a tudo que é vivo. Os seres humanos surgiram no momento em que a Terra começou a sentir e a pensar, por isso somos homo sapiens, originários do húmus, que significa terra boa, terra que pensa e que ama. Precisamos nos sentir parte da Terra, colaboradores e solidários. Papa Francisco diz que temos que superar os soberanismos ultrapassados. E o coronavírus nos mostrou que não existem fronteiras a nos separar”, afirmou.

Razão científica e razão cordial

Leonardo Boff lembrou ainda o Dia Mundial da Mãe Terra, 22 de abril, que, segundo ele, foi aprovado pela Organização das Nações Unidas em atendimento a um antigo projeto das nações indígenas e em retratação por um erro moral dos não indígenas. “Não podemos continuar explorando a natureza até sua exaustão. Precisamos cuidar da Terra Mãe, porque somos mamíferos racionais, mas originários de cérebro límbico, que cuida de suas crias, que precisa unir razão científica e razão cordial. Como os andinos, queremos viver em harmonia completa, viver o bem supremo de toda ética, que é o respeito ilimitado a todo ser. O dia que tivermos esse respeito não precisaremos mais falar em direitos”, disse.

E acrescentou: “Cuidemos uns dos outros, como irmãos, com máscaras, evitando aglomeração e cuidando da natureza para que ela não nos mande outros vírus. Devemos fazer um pacto social mundial em torno do que é comum a todos. Devemos alimentar o sonho bom de regenerar a Terra e nunca perder a esperança. Como dizia Santo Agostinho, a esperança tem duas belas irmãs: a indignação, que é contra tudo que está ruim, e a coragem, para mudar o que está ruim. Então, enamoremo-nos dessas duas irmãs para darmos o primeiro passo, porque não fomos criados para sofrer, mas, como diz o poeta, para brilhar e celebrar a beleza da vida”, concluiu.

Leonardo Boff  também refletiu sobre o papel da extensão, que, em sua visão, é uma forma de “reparação de uma dívida com a sociedade”, que se dá por meio do diálogo direto com o povo. Esse caminho, também proposto pela Fratelli tutti, é o de valorizar a vida local, a economia solidária, a participação popular, a cultura de um povo, para que todos se sintam como cidadãos.

Claudia Mayorga ressaltou a participação de mais de 14 mil pessoas no evento (Reprodução de tela: Raphaella Dias | UFMG)

Potente e consolidada

O 9º Congresso de Extensão Universitária, que registrou 14.903 inscrições e 3.578 trabalhos, números que, na avaliação da pró-reitora de Extensão da UFMG, Claudia Mayorga, sinalizam “o quanto a extensão universitária no país está potente e consolidada”. Além disso, cerca de 800 estudantes participaram da organização do evento.

Em um rápido balanço, a pró-reitora ressaltou as contribuições proporcionadas pelos trabalhos nos campos teórico, epistemológico, ético e das políticas públicas e o protagonismo dos estudantes que conduziram as atividades do Espaço Paulo Freire. “O Congresso indicou uma agenda sobre extensão e direitos humanos, que precisa ser sistematizada, para que possamos romper com a dicotomia entre direitos humanos e direitos da Terra”, afirmou.

Para a professora Eliane Garcia, pró-reitora de Extensão da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), parceira da UFMG na realização do evento, tanto o Congresso quanto o 47º Forproex, aberto ontem, revelam a importância que as pessoas têm dado à discussão da extensão no país. “São dois grandes eventos, que se fundamentam no compromisso social das instituições de ensino superior com as políticas públicas.”

“Fica evidente que a extensão nos dá condições de fazer o que é de interesse da população e que a Universidade é esse espaço vivo, plural, comprometido com a produção de conhecimento e com as prioridades locais, regionais e nacionais”, acrescentou a vice-presidente do 47º Forproex, professora Olgamir Amância Ferreira.

Eliane Garcia, pró-reitora de Extensão da Unifal, ressaltou a responsabilidade social das universidades (Reprodução de tela: Raphaella Dias | UFMG)

Para o presidente da Andifes, Edward Madureira Brasil, as universidades mostraram sua força num momento tão intrigante e desafiador. Segundo ele, a proposta de trabalho colaborativo em redes, tema desta edição, é “exemplar e precisa fazer parte do dia a dia e da natureza de todos os campos de atuação das universidades”.

Na avaliação da presidente do Fórum de Pró-reitores de Extensão das Ipes, Adriana Marmori, pró-reitora de Extensão da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), o evento foi ótima oportunidade para pensar os processos formativos dos discentes, dentro e fora das universidades, “refletindo sobre uma formação técnica e humanizada, que nos impulsione a remover todas as pedras do caminho e a nos mobilizar para a manutenção e valorização das universidades públicas e da ciência produzida por elas”.

O reitor da Unifal, Sandro Amadeu Cerveira, destacou o pioneirismo da extensão no Brasil como elemento dialógico para que as instituições não se enclausurem em si mesmas, mas que sejam vozes de alerta para a sociedade, governos e mercado. “Essa capacidade de diálogo também passa pela capacidade de escuta das universidades para as demandas da sociedade”, recomentou Cerveira.

Na avaliação da reitora da UFMG, Sandra Regina Goulart Almeida, o atendimento das demandas sociais depende das soluções propostas pelas universidades públicas, que sofrem com cortes em seus orçamentos. “O impacto será direto sobre as ações do ensino, pesquisa e extensão. Para um país que deseja ser soberano e inclusivo, é imprescindível investimento em educação, na saúde e no SUS, especialmente porque essa estrutura atende as populações mais vulneráveis. Precisamos do empenho de todos para formarmos um mutirão de pertencimento à Terra, por meio de ações de extensão e de cooperação que nos guiem em um caminho mais solidário para o enfrentamento da pandemia e para a construção de um país melhor para todos”, defendeu.

Teresa Saches/UFMG