Na abertura do 9º Congresso de Extensão Universitária, pensador destacou a relação de partilha que indígenas, quilombolas e ribeirinhos estabelecem com os ambientes onde vivem

Krenak: “o homem deve se sentir parte integrante da terra” (Reprodução de tela Raphaella Dias/UFMG).

A relação entre direitos humanos e o direito à terra foi o tema abordado por Ailton Krenak, escritor e ativista do movimento socioambiental e de defesa dos povos indígenas, na conferência Direitos da terra e de humanos também, que abriu, na noite desta segunda-feira, dia 8, os trabalhos do 9º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária (CBEU).

Em sua fala, Krenak destacou que os direitos humanos podem ser divididos em duas vertentes principais: o direito à vida e o direito ao pertencimento. Em se tratando do direito ao pertencimento, o ativista disse que ele se refere ao fato de que todo cidadão tem o direito de pertencer a uma comunidade.

“Pertencer a uma comunidade é algo que está diretamente relacionado ao direito à terra porque toda pessoa deveria poder se filiar à terra, se constituindo como um defensor da vida na terra e agindo em defesa do planeta. Assim, os direitos humanos e o direito à vida constituem uma mesma dinâmica, em que a ideias de cidadania e de florestania andam juntas. Não podemos esquecer que não existem direitos humanos sem o direito à terra”, disse.

Segundo o ativista, algumas comunidades que habitam o planeta, como os quilombolas, os ribeirinhos e os indígenas, já entenderam a importância de compartilhar a vida e a terra, “constituindo uma espécie de mutirão de pertencimento à terra. Esses povos já entenderam que a terra é nossa mãe, então não devemos enxergá-la como propriedade”, afirmou.

A terra prove

Ao chamar a terra de “mãe”, Krenak explicou que este tratamento transcende a dimensão poética. “A terra pode ser chamada assim porque ela faz exatamente o que uma mãe faria: ela prove. A terra é provedora dos homens.” Tal pensamento foi reafirmado diversas vezes pelo ativista, ao destacar que “a terra, como nossa mãe, precisa ser levada em conta. Se ela é deixada de lado, não existem direitos humanos. O homem moderno quer habitar a terra, mas sem se sentir parte integrante da mesma. Isso não é possível.”

Ailton Krenak também criticou a ação humana que mira o lucro e destrói o meio ambiente. Segundo o escritor, o agronegócio, as grandes empresas, o mercado e o desenvolvimento devem existir sem que as pessoas percam o direito à terra, à vida e ao pertencimento. “Estamos cada vez mais dependentes da tecnologia e pouco sensíveis à nossa mãe-terra. Sem a natureza, seremos subjugados e deixaremos de ser cidadãos. Estamos revirando o planeta, e ele está respondendo. O corpo ferido da terra vai acabar se recuperando, mas aí talvez será tarde demais.”

Do assistencialismo aos direitos

A pró-reitora de extensão da UFMG, Claudia Andrea Mayorga, celebrou o fato de Minas Gerais sediar o Congresso Brasileiro de Extensão Universitária (CBEU) pela terceira vez e destacou a importância da extensão nas atividades das universidades. “Nos anos 80, a extensão deu uma guinada, saindo do campo do assistencialismo para começar a atuar no campo dos direitos. Esse salto não foi trivial e é por isso que hoje a extensão universitária é tão importante para as universidades públicas e para a sociedade brasileira, pois atua em sintonia com as pautas importantes, questões e problemas do nosso povo”, afirmou.

A professora Olgamir Amancia Ferreira, decana de extensão da Universidade de Brasília (UnB) e vice-presidente do Fórum de Pró-reitores de Extensão das Instituições Públicas de Educação Superior Brasileiras (Forproex), acrescentou que a extensão é a maior expressão de ousadia no ambiente da educação superior brasileira e que o trabalho em rede é essencial para que a extensão consiga atuar de forma significativa e produtiva. “Trabalhar em rede é central na extensão. Devemos sempre nos questionar para que servem as universidades. Darcy Ribeiro dizia que elas deveriam produzir um conhecimento engajado e vinculado às necessidades do povo. E é ai que entra a extensão.”

O reitor da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), Sandro Amadeu Cerveira, disse que a extensão universitária é essencial para que as instituições de ensino cheguem ao cotidiano das pessoas, pois “somente por meio da extensão as universidades conseguirão construir um conhecimento verdadeiramente transformador”, concluiu.

8 de março

O Dia Internacional da Mulher, que é celebrado desde 1975, também foi lembrado na cerimônia de abertura do CBEU. A reitora Sandra Regina Goulart Almeida destacou que a atual crise sanitária tem provocado severos impactos na vida das mulheres. “A pandemia trouxe retrocessos de direitos que as mulheres já haviam conquistado. Falar dos direitos humanos é falar dos direitos das mulheres, da democracia, da liberdade de expressão e do combate às desigualdades de gênero, raça e etnia. Por isso, aproveito este momento para agradecer às mulheres da ciência e da área de saúde pela garra, dedicação e resiliência na pandemia”, disse.

A presidente do Forproex e pró-reitora de Extensão Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Adriana dos Santos, corroborou com a fala da reitora da UFMG ao destacar que as mulheres são as que mais perderam empregos ou foram violentadas na pandemia. “Minha voz como mulher, negra, mãe, educadora e gestora se soma às vozes de milhares de mulheres que me antecederam. Quando falamos da importância de se formar redes em defesa dos direitos humanos neste congresso, eu preciso colocar, em destaque, os direitos das mulheres. A educação deve estar focada nisso. Paulo Freire já dizia que os animais são adestrados, as plantas são cultivadas, enquanto os homens e as mulheres se educam.”

O  CBEU

Com o tema Redes para promover e defender direitos humanos, o 9º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária (CBEU) é organizado em conjunto pela UFMG e pela Universidade Federal de Alfenas (Unifal). O evento deverá reunir mais de 10 mil congressistas de todo o país, que vão acompanhar as atividades da programação virtual até quinta-feira, 11 de março. As inscrições de ouvintes ainda estão abertas e podem ser feitas até o último dia. A programação, gratuita e aberta ao público, está disponível no site do evento.

Realizado desde 2002, o CBEU tem como objetivo discutir os grandes desafios da sociedade brasileira com base na relação entre universidade e sociedade, abrindo espaços de diálogo, trocas e articulações dos saberes e práticas da extensão universitária.

Luana Macieira/Jornalista UFMG