Parceria entre professor e intérprete e envolvimento da comunidade acadêmica são fundamentais para inclusão de alunos surdos, defendem palestrantes em seminário

Com reflexões sobre os desafios e estratégias para promover maior inclusão de alunos surdos na UFMG, o programa Integração Docente promoveu, na tarde desta quarta-feira, o 4º Seminário deste ano, com o tema Dos bastidores à prática de enfrentamento às barreiras de acessibilidade comunicacional”.

Transmitido pelo canal da Coordenadoria de Assuntos Comunitários (CAC/UFMG) no YouTube, no qual também está disponível, o evento contou com a participação do vice-reitor, Alessandro Moreira, representando a reitora da Universidade, professora Sandra Goulart Almeida, e do pró-reitor de Graduação, Bruno Teixeira, responsáveis pela abertura. A mediação foi feita pela diretora adjunta do Núcleo de Acessibilidade e Inclusão (NAI)

Docente da Escola de Engenharia destacou a importância de iniciativas que coloquem em pauta a inclusão e a acessibilidade no âmbito da UFMG. “Vamos conseguir alcançar, com maior eficiência essas questões, se toda nossa comunidade acadêmica estiver sintonizada, alinhada”, projetou o vice-reitor.

O pró-reitor de Graduação, Bruno Teixeira, lembrou o papel da Lei nº 12.711, a Lei de Cotas, na indução de mudanças no perfil do alunado e no debate sobre um ensino superior, de fato, inclusivo.

Apesar de a reserva das vagas prevista pela norma ter se dado a partir de 2018 na UFMG, a instituição já buscava fortalecer as estruturas voltadas à inclusão e à acessibilidade, com a criação do NAI em 2015 e com discussões constantes sobre como aprimorar as práticas inclusivas.

“Embora as experiências que serão apresentadas possam parecer um pouco específicas, entender os princípios adotados para o acolhimento desses estudantes é certamente algo que podemos conhecer e aplicar no nosso dia a dia, seja qualquer for a atividade acadêmico-curricular que estejamos lecionando”, explicou o pró-reitor.

Inclusão em todas as etapas

A diretora do (NAI/UFMG), Regina Fonseca; os tradutores e intérpretes de Libras do Núcleo, Joe Campos Costa e Sônia Romeiro, e a professora Mônica Rahme, da Faculdade de Educação, relataram as suas vivências na promoção de estudantes surdos nas suas respectivas áreas de atuação. O ponto de partida do debate foi uma experiência de Mônica com uma turma do curso de Letras-Libras da Universidade.

À frente do NAI desde 2022, Regina apresentou dados sobre o perfil dos discentes com deficiência da Universidade, cujo número passou de 228 em 2017 para 995 em 2022. Aproximadamente, 20% dos alunos possuem deficiência auditiva; 25%, visual e quase 36%, física.

Cerca de 600 são cadastrados e contam com o apoio prestado pelo Núcleo. “O trabalho do NAI é uma construção permanente que só possível com a participação efetiva de toda a comunidade universitária. Muito já foi feito, mas ainda temos muito a fazer e muita sensibilização a ser construída com todo mundo.”

Joe Costa relatou a sua experiência como então graduando em Gestão Pública e, logo depois, servidor do NAI, e como utilizou conhecimentos do curso e sua vivência como intérprete para desenvolver o Signers, um software para gerir a demanda e a oferta de tradutores de Libras para estudantes surdos na Universidade. A ferramenta foi adotada em 2021 e, neste ano, recebeu o registro de titularidade pela Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica (CTIT).

“O Signers representa muito essa interface do NAI junto à Reitoria, à DTI e à CTIT, para a construção de um sistema que foi todo idealizado, construído, por um servidor técnico-administrativo e também aluno de Gestão Pública, como forma de pensarmos nos potenciais da UFMG para dar respostas à comunidade acadêmica ou mesmo de responder problemas públicos”.

Colega de Joe no NAI, a Sônia Romeiro, que atua com maior frequência na Escola de Fisioterapia e Educação Física (EEFTO), comentou as dificuldades do trabalho de intérprete, considerando a número reduzido de intérpretes – menos de 20 no total, entre servidores e terceirizados para aulas, eventos e tradução de documentos– e a responsabilidade de traduzir conceitos técnicos e específicos de disciplinas.

O apoio dos professores, que devem informar a programação do semestre, passar com antecedência os conteúdos e estar abertos a discutir terminologias e estratégias didáticas com os intérpretes é fundamental, na opinião de Sônia.

Abordando seu trabalho na disciplina “Psicologia da Educação”, no primeiro semestre de 2021, para a turma da graduação de Letras-Libras, na qual havia 15 alunos surdos, a intérprete destacou a abertura da professora Mônica Rahme, responsável pela matéria.

“Ela me deixou sempre muito à vontade para fazer sugestões, adaptações. Eu podia levar materiais para compartilhar com a turma, ela aceitava modificações propostas pelos alunos e fazia perguntas sobre como gerenciar as coisas. Se eu não tivesse tido esse apoio da Mônica, o resultado poderia ter sido desastroso”, avaliou.

 Encerrando o painel, Mônica Rahme tratou da experiência de idealizar e conduzir a disciplina para grupo composto em sua maioria por estudantes surdos.

Ao lado da parceria com a intérprete de referência, Sônia, outras estratégias foram adotadas como plantões para tirar dúvidas antes das aulas, gravações dos encontros para que os alunos pudessem reassistir às lições, a tradução dos enunciados em Libras e o estudo de terminologias próprias da psicologia da educação a partir de materiais disponíveis nos repositórios de outras universidades, que já tinham interpretações na língua de sinais.

Para a docente, ministrar a disciplina nesse contexto levou a reflexões sobre a relação dos estudantes surdos com a psicologia na sua vida cotidiana e entre professor, intérprete e aluno. Mônica acredita que a experiência também incentivou os estudantes ouvintes a pensarem sobre sua inserção no mundo.

“Acho que todos os estudantes que ficaram até o final desse curso saíram diferentes. Para os ouvintes foi uma experiência de se sentirem minoritários. Algumas vezes tive oportunidade de conversar com a turma sobre isso porque é muito importante conseguirem extrair dessa experiência reflexões sobre o que públicos considerados minoritários vivem em relação às ditas maiorias.”

Assessoria de Comunicação do Caed

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